Você com certeza conhece. E com certeza tem uma opinião formada, preconceituosa ou liberal sobre. Os romances de bancas há quase 30 anos tem marcado a produção editorial brasileira com suas altas vendas e críticas controversas a respeito de seu conteúdo e com um estigma que segue suas leitoras. Ele já foi chamado de literatura cor-de-rosa, livrinho água com açúcar e literatura de mulherzinha (o gênero chick-lit também é estereotipado com essa denominação).

Não estou aqui para fazer defesas ao gênero. E sim, já li romances de banca há muito tempo atrás. Se aparecer algum na minha frente, não teria problema em ler. Às vezes, sinto até falta de ler algo tão descompromissadamente. Leitura é leitura, literatura é literatura. Como todo tipo de arte, tem o fim em si própria. Além disso, ler é sempre uma atividade prazerosa e benéfica. Estudos garantem que a leitura de romances de banca proporciona os mesmos benefícios da literatura considerada conceituada.

Entre 1940 e 1960, um tipo de romance popular começou a ser traduzido pela Companhia Editora Nacional e formou a conhecida coleção Biblioteca das moças. Essa coleção deu origem ao gênero que conhecemos atualmente como romance de banca.

O romance de banca foi introduzido no Brasil na década de 70 pela pioneira Editora Nova Cultural que, atualmente, vende 2 milhões de cópias. No Brasil, há duas grandes editoras que atuam no segmento, a citada Editora Nova Cultural que é a maior e importa seus livros da norte-americana Kensington e a Harlequim Books Brasil, uma filial de uma editora canadense.

Os romances de banca obedecem a um padrão que torna quase impossível não reconhecê-lo: são baratos e vendidos principalmente em bancas de jornal, o que deu origem a seu nome principal, possuem títulos com sugestivos e, muitíssimas vezes, de gosto duvidoso e capas mais sugestivas ainda.

Os títulos e as capas chamam muita atenção e podem dar a uma sensação de desconforto  para o leitor que decide ler o livro em público. Acredito que isso impeça pessoas que querem conhecer o gênero e se sentem impedidas por essas características,.

As histórias também seguem um modelo: finais sempre felizes e protagonistas que devem passar pelo maior número de obstáculos para ficarem juntos.

As editoras lançam séries de livros, as mais famosas são as séries Sabrina, Bianca e Jéssica, sendo cada série voltada para uma temática: Sabrina são histórias atuais e tem protagonistas independentes; Bianca possui protagonistas sonhadoras e tem histórias situadas no passado; já Jéssica são as histórias mais picantes. Ainda há a série de Grandes clássicos e Clássicos históricos.

Eu já li romance de banca, na época minha série favorita era a Sabrina, pois as histórias tendem sempre um pouco para a comédia, lembrando um pouco as histórias dos filmes de comédia romântica e aos, agora famosos, livros de chick-lit.

Muitas escritoras de romances de banca fazem tanto sucesso que começam a escrever livros que serão vendidos em livrarias, mas com as mesmas características dos romances de banca. Então, existem livros em livrarias com conteúdo de romance de banca. E existem muitos! O grande exemplo de uma escritora que migrou do romance de banca é Nora Roberts com mais de 160 livros publicados (!!) e traduzidos para mais de 25 idiomas.

Há muitas outras escritoras de romances de banca que passaram a ser escritoras de romance de livraria, como Candace Camp, Anne Mather, Penny Jordan, Carole Mortimer, Patricia Potter, Anne Weale, Ruth Langan, Sandra Canfield e Abra Taylor, para citar algumas.

Devido a esse padrão sistemático de produção e escrita, atribui-se a leitura de romances de banca às pessoas com baixo nível de escolaridade. Entretanto, estudos mostram que essa conclusão é totalmente errada: as leitoras são mulheres de classe média, entre 20 e 40 anos e 80% trabalham.

Não há dúvidas que a leitura de qualquer tipo de literatura é positiva, porém acredito que deve-se sempre tomar cuidado com os extremos. Esse tipo de literatura faz parte da literatura de massa, onde estão englobados também os best sellers. A leitura da literatura de massa é considerada uma mediadora entre a leitura dessa e da outra literatura (a considerada literatura consagrada). É importante passar por essa ponte e experimentar novos tipos de literatura e, assim, aumentar a visão de mundo e as próprias perspectivas de vida.

Não é saudável, por exemplo, ler durante anos apenas romances de banca, pois se corre o risco de tornar-se uma pessoa com senso crítico limitado e assimilar somente a postura ideológica do tipo de mulher/homem retratado nesses romances. O mesmo raciocínio serve para a leitura única de clássicos. Claro que todos temos preferências, mas viver de acordo com opiniões e idéias extremas nunca é saudável.

Então, da próxima vez que você vir uma mulher (ou homem por que não?) lendo um livrinho com a capa com um homem musculoso sem camisa e uma mulher (muito provavelmente loura) com ares extasiados por sua beleza, não vá torcer o nariz: aquilo é só uma distração, não é um lembrete de solidão ou um aviso que ela precisa de um namorado! Assim como muitos best sellers que conhecemos (e adoramos) esses livros tem o papel é de entretenimento e (espera-se) intermediação para os (considerados) grandes livros da literatura.

Comentários

Bibliotecária, leitora compulsiva, cinéfila amadora. 25 anos, há 8 com o "the one". Tímida e estabanada. Totalmente distraída, fico nervosa por nada e rápido, mas com a mesma velocidade, esqueço. Não guardo rancor por nada e por ninguém, mas tudo se soma para formar a personalidade das pessoas em minha cabeça. Não sou vingativa, mas sou pirracenta como uma criança. Sou flexível e tento ser prática. Procuro entender mesmo o que não concordo. Não sei receber elogios e não sei fazer críticas. Fico calada quando estou com raiva e depois solto tudo de uma vez só, sem medir as palavras. Sou apegada com o que e com quem gosto. Gosto de ser educada com todos mas às vezes digo respostas atravessadas sem perceber.

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